O engenheiro Felipe Schroeder dos Anjos informa que o descarte irregular de entulho em vias públicas e terrenos baldios gera focos de dengue, assoreamento de córregos e degradação da paisagem urbana. A gestão de resíduos sólidos da construção civil exige uma cadeia logística estruturada, capaz de transformar um passivo ambiental em matéria-prima para novas obras de infraestrutura e pavimentação, promovendo a economia circular e a preservação ambiental nas grandes metrópoles brasileiras.
A segregação no canteiro de obras
A primeira etapa do processo ocorre ainda no canteiro de obras, com a segregação dos materiais por tipologia. Madeira, metais, plásticos e resíduos de gesso não podem ser misturados ao entulho de alvenaria e concreto, pois contaminam o fluxo de reciclagem e inviabilizam a produção de agregados de qualidade para uso estrutural, exigindo capacitação contínua e rigorosa dos profissionais da construção civil.
Felipe Schroeder dos Anjos aponta que a triagem mecanizada em usinas de reciclagem exige britadores de mandíbula e peneiras vibratórias de alta precisão. O material é reduzido a fragmentos homogêneos, classificados por granulometria e separado de contaminantes leves por sistemas de aspiração, garantindo a pureza do agregado reciclado e a viabilidade comercial do produto final no mercado da construção.
A norma ABNT NBR 15116 estabelece requisitos técnicos específicos para agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil, definindo parâmetros de absorção de água, teor de finos e resistência mecânica mínima. O cumprimento dessas especificações técnicas é fundamental para garantir a aceitação do material reciclado em obras estruturais e de pavimentação, eliminando barreiras comerciais e ampliando o mercado consumidor.
A aplicação dos agregados reciclados
O agregado resultante da britagem substitui a areia natural em diversas aplicações da construção civil. O material é utilizado na fabricação de blocos de concreto, artefatos de pavimentação e como base para camadas de subleito em rodovias, reduzindo a pressão sobre as jazidas de extração de areia e brita em regiões metropolitanas e protegendo os mananciais superficiais.
A logística reversa do entulho depende de pontos de entrega voluntária estrategicamente distribuídos pela malha urbana. A fiscalização rigorosa do transporte por caminhões caçamba, com rastreamento por GPS e manifestos de resíduos eletrônicos, impede o descarte clandestino e garante que todo o material coletado chegue às usinas de beneficiamento, assegurando a rastreabilidade completa da cadeia.

Estudos de desempenho técnico demonstram que agregados reciclados de qualidade apresentam propriedades mecânicas compatíveis com materiais naturais quando aplicados em camadas de base e sub-base de pavimentos. Felipe Schroeder dos Anjos ressalta que a durabilidade dessas camadas, quando corretamente compactadas e protegidas contra infiltração excessiva, atinge valores semelhantes aos observados em pavimentos convencionais, validando a aplicação técnica do material reciclado.
Os desafios da viabilidade econômica
A viabilidade econômica das usinas de reciclagem de entulho esbarra na concorrência desleal com a extração predatória de areia. Quando o preço do agregado natural cai artificialmente, o custo de processamento do material reciclado torna-se menos competitivo, exigindo políticas públicas de incentivo fiscal e obrigatoriedade de uso em obras municipais para equilibrar o mercado e fomentar o setor.
Com isso, Felipe Schroeder dos Anjos observa que a economia circular na construção civil depende da rastreabilidade completa dos materiais. A certificação de origem dos agregados reciclados e a inclusão de cláusulas ambientais em editais de licitação pública criam um mercado cativo, estimulando o investimento privado em tecnologias de triagem e beneficiamento, fundamentais para o desenvolvimento sustentável.
O tratamento de resíduos específicos
A reciclagem de resíduos da construção civil não se limita aos materiais inertes. O gesso, quando destinado incorretamente, contamina o solo e os lençóis freáticos ao liberar sulfatos. Usinas especializadas realizam a calcinação do material, recuperando a matéria-prima para a fabricação de novas placas e revestimentos, fechando o ciclo produtivo e evitando passivos ambientais de longo prazo.
A consolidação desse mercado exige a integração entre poder público, construtoras e cooperativas de catadores. A capacitação técnica dos profissionais da construção para a segregação correta no canteiro de obras é o elo mais frágil da cadeia, mas também o mais determinante para o sucesso da gestão de resíduos sólidos e para a consolidação definitiva da economia circular no setor da construção civil brasileira.
