IA avança nos consultórios e médicos brasileiros já usam tecnologia para apoiar diagnósticos

Sarah Hartmere
12 Min de leitura

Pesquisa indica que 66,1% dos médicos participantes já utilizam inteligência artificial, com apoio à decisão clínica entre as principais aplicações.

A inteligência artificial está deixando de ocupar apenas funções administrativas e começando a participar de uma área muito mais sensível da medicina: o apoio à decisão clínica. Pesquisa divulgada em setembro pela MV Insights mostra que 66,1% dos médicos participantes afirmaram utilizar ferramentas de IA regularmente ou ocasionalmente. Entre os profissionais que já adotam a tecnologia, o uso mais frequente está relacionado justamente ao apoio ao diagnóstico, incluindo interpretação de exames, sugestão de códigos de doenças e correlação de sintomas. O resultado indica uma mudança importante na forma como parte dos profissionais está incorporando sistemas digitais à rotina de atendimento.

O levantamento ouviu 196 participantes ligados ao ecossistema de saúde, dos quais 112 eram médicos em atuação ou formação. A pesquisa foi conduzida entre o segundo semestre de 2025 e o início de 2026 e reuniu participantes das cinco regiões brasileiras. Entre os 112 classificados como médicos, 74 disseram utilizar inteligência artificial de forma regular ou ocasional. Considerando especificamente aqueles que já usam IA, 56,6% indicaram aplicações de apoio à decisão clínica, enquanto atividades como transcrição de consultas, evolução clínica e produção de documentos aparecem posteriormente entre as utilizações mencionadas.

Os resultados precisam, entretanto, ser interpretados dentro dos limites metodológicos do levantamento. A própria pesquisa não tem pretensão de representar estatisticamente toda a classe médica brasileira: a amostra é relativamente pequena e possui concentração geográfica, com São Paulo respondendo por 28,6% dos participantes. Além disso, a pesquisa foi produzida pela MV, empresa que comercializa sistemas de gestão hospitalar e soluções tecnológicas para saúde. Os percentuais, portanto, descrevem o grupo pesquisado e ajudam a identificar tendências de adoção, mas não permitem afirmar que exatamente dois terços de todos os médicos do país já utilizam inteligência artificial.

Como os médicos estão usando inteligência artificial para apoiar diagnósticos?

O uso clínico identificado pelo levantamento envolve diferentes tarefas que antes dependiam exclusivamente da análise manual de informações pelo profissional. Entre os médicos que já utilizam inteligência artificial, aparecem ferramentas capazes de auxiliar na interpretação de exames, correlacionar sintomas e organizar informações clínicas relevantes. Em algumas especialidades, algoritmos podem analisar grandes quantidades de dados ou imagens e destacar padrões que merecem atenção. A proposta dessas ferramentas não é estabelecer autonomamente um diagnóstico definitivo, mas oferecer informações adicionais que possam ser avaliadas pelo profissional responsável pelo paciente.

Os números mostram que essa aplicação clínica aparece antes de diversas tarefas administrativas. Segundo o levantamento, 56,6% dos médicos que já utilizam IA mencionaram apoio à decisão clínica, enquanto transcrição de consultas e evolução clínica apareceram com 17%, e geração de receitas, relatórios e documentos assistenciais, com 10,7%. Chatbots direcionados aos pacientes e ferramentas de triagem ficaram abaixo de 4%. Esse comportamento sugere que, entre os participantes da pesquisa, a inteligência artificial está sendo incorporada principalmente como uma ferramenta usada pelo próprio profissional, e não como uma interface destinada a substituir o contato entre médico e paciente.

Existe também uma relação entre familiaridade digital e adoção da inteligência artificial. Entre os médicos pesquisados que disseram utilizar tecnologias digitais “sempre” em suas atividades, 81% também afirmaram usar IA. Entre aqueles que declararam nunca utilizar ferramentas digitais, a proporção de usuários de inteligência artificial caiu para 23%. A pesquisa interpreta essa diferença como sinal de que a maturidade digital prévia pode exercer influência relevante na adoção da nova tecnologia, possivelmente até mais do que fatores como geração ou especialidade médica.

Essa entrada da IA no raciocínio clínico, contudo, exige cautela maior do que sua utilização para organizar agendas ou transcrever documentos. Sistemas podem produzir respostas incorretas, interpretar informações de maneira inadequada ou apresentar conclusões que parecem convincentes mesmo quando não estão suficientemente sustentadas. Por isso, o uso clínico exige validação científica, conhecimento das limitações do sistema e supervisão profissional. A inteligência artificial pode processar informações e indicar possibilidades, mas os dados precisam ser contextualizados com histórico, exame físico, resultados laboratoriais e outras informações que fazem parte da avaliação médica individual.

O que muda com as novas regras para inteligência artificial na medicina?

O crescimento da utilização dessas ferramentas ocorre justamente quando o Brasil estabelece regras específicas para a inteligência artificial na prática médica. A Resolução CFM nº 2.454/2026, que entrou em vigor em 26 de agosto, estabelece parâmetros para o emprego dessas tecnologias por médicos e instituições de saúde. Um dos princípios centrais é que a IA deve funcionar como ferramenta de apoio, sem substituir a autonomia profissional. A decisão sobre diagnóstico, prognóstico, prescrição ou qualquer outro ato médico permanece sob responsabilidade do médico, que pode aceitar ou rejeitar as sugestões apresentadas pelo sistema.

A norma também estabelece uma abordagem baseada no risco das tecnologias utilizadas. Sistemas com diferentes níveis de impacto potencial sobre o paciente exigem graus distintos de controle e governança. O objetivo é impedir que uma ferramenta capaz de influenciar diretamente uma decisão clínica seja tratada da mesma maneira que uma aplicação administrativa de baixo impacto. Para instituições de saúde, isso significa que incorporar inteligência artificial não envolve apenas contratar um software: é necessário avaliar finalidade, riscos, segurança, tratamento de dados e formas adequadas de supervisão.

A proteção das informações médicas é outro ponto fundamental. Sistemas de IA podem depender de grandes volumes de dados para produzir análises, e informações sobre diagnóstico, exames e histórico clínico estão entre os dados pessoais mais sensíveis. A utilização dessas ferramentas precisa, portanto, observar regras de privacidade, segurança e confidencialidade. Esse cuidado ganha ainda mais importância quando soluções externas são integradas aos prontuários ou quando informações clínicas são enviadas para sistemas que processam dados fora da infraestrutura da instituição.

As novas regras aproximam a discussão regulatória justamente do comportamento observado na pesquisa. Se a IA estivesse restrita ao preenchimento de documentos, os riscos clínicos seriam relativamente diferentes. Mas, à medida que médicos passam a utilizá-la para interpretar exames e apoiar decisões, aumenta a necessidade de saber como o algoritmo chegou a determinada sugestão, quais evidências sustentam seu funcionamento e quais limitações foram identificadas. O avanço tecnológico, portanto, passa a caminhar junto com uma demanda crescente por governança e responsabilização.

Custo, integração e evidências ainda limitam a expansão da IA na saúde

Apesar do avanço observado, o principal obstáculo apontado pelos participantes não foi uma rejeição generalizada à inteligência artificial. O custo de implantação ou assinatura foi citado por 30,4% dos médicos como barreira, seguido pela dificuldade de integração com sistemas existentes, mencionada por 22,3%. Falta de treinamento apareceu com 19,6%, enquanto ausência de evidências científicas suficientes foi indicada por 17%. Esses resultados mostram que a expansão da IA depende tanto da qualidade dos algoritmos quanto da infraestrutura tecnológica disponível dentro de hospitais, clínicas e consultórios.

As prioridades também variaram conforme o ambiente profissional. Entre médicos de hospitais públicos participantes do levantamento, o custo apareceu com mais força como obstáculo, enquanto profissionais da rede privada atribuíram maior importância relativa à capacitação e à existência de evidências clínicas. Essa diferença é relevante porque a inteligência artificial não chega a todas as instituições nas mesmas condições. Grandes hospitais podem possuir equipes de tecnologia, prontuários integrados e estruturas próprias de governança, enquanto unidades menores podem enfrentar dificuldades para integrar ferramentas aos sistemas existentes e avaliar tecnicamente diferentes fornecedores.

A confiança também parece aumentar conforme cresce a experiência com a tecnologia. Entre médicos que utilizam IA regularmente, a confiança média registrada foi de 3,44 em uma escala de 1 a 5, aproximadamente 26% superior à observada entre aqueles que nunca haviam utilizado essas ferramentas, segundo o levantamento. A associação não demonstra que o uso necessariamente causa maior confiança, mas mostra uma diferença importante entre os grupos pesquisados. Para que essa confiança seja sustentável, entretanto, a adoção precisará ser acompanhada por validação científica, treinamento profissional e transparência sobre limitações.

O cenário identificado pela pesquisa é, portanto, menos o de uma substituição dos médicos por algoritmos e mais o de uma mudança nas ferramentas disponíveis para o exercício da profissão. A IA começa a entrar em atividades que vão da documentação ao apoio à interpretação de exames, enquanto novas regras procuram preservar a supervisão humana e a responsabilidade médica. O desafio para os próximos anos será transformar a expansão tecnológica em ganho real de qualidade e segurança, evitando que rapidez e automação sejam confundidas com precisão clínica.

A pesquisa MV Insights fornece um retrato limitado, mas relevante, desse momento de transição. Seus resultados não devem ser generalizados para todos os médicos brasileiros, porém mostram que, entre os profissionais pesquisados, a inteligência artificial já alcançou atividades diretamente relacionadas à assistência. A questão que passa a ganhar importância não é apenas quantos médicos usarão IA, mas como essas ferramentas serão avaliadas, integradas e supervisionadas quando começarem a influenciar decisões que afetam diretamente a saúde dos pacientes.

Fontes:

Exame — Médico brasileiro já usa mais IA para diagnosticar do que para preencher papelada

MV — Dados da pesquisa sobre uso de IA por médicos brasileiros

Medicina S/A — Quase 70% dos médicos participantes já usam inteligência artificial

Conselho Federal de Medicina — Regras sobre uso de IA na medicina

Compartilhe este artigo