Anvisa suspende três estudos da Novartis com terapia celular após mortes de pacientes

Sarah Hartmere
11 Min de leitura

Ensaios avaliavam terapia CAR-T experimental contra doenças autoimunes; três participantes morreram após complicações graves registradas no programa internacional.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão de três ensaios clínicos conduzidos no Brasil com o rapcabtagene autoleucel, terapia celular experimental desenvolvida pela Novartis para o tratamento de doenças autoimunes graves. A decisão foi publicada após a farmacêutica interromper temporariamente estudos internacionais do medicamento diante da morte de três participantes.

Também chamado de rap-cel ou YTB323, o tratamento pertence à classe das terapias CAR-T, abordagem que utiliza células de defesa do próprio paciente modificadas para reconhecer determinados alvos. A tecnologia já é empregada em alguns tipos de câncer, mas sua utilização para doenças autoimunes permanece em investigação e ainda depende de estudos capazes de demonstrar segurança e eficácia.

Os três estudos interrompidos no Brasil avaliavam o tratamento em pacientes com condições como lúpus eritematoso sistêmico, nefrite lúpica, granulomatose com poliangeíte, poliangeíte microscópica e esclerose sistêmica cutânea difusa. A suspensão impede a continuidade dos ensaios abrangidos pela decisão enquanto as questões de segurança são avaliadas.

Os óbitos ocorreram no programa internacional de desenvolvimento do rap-cel. Segundo informações divulgadas pela Novartis, os três pacientes apresentaram uma reação grave conhecida como síndrome hemofagocítica associada a células efetoras imunes, ou IEC-HS. A ocorrência é reconhecida como uma possível complicação grave relacionada a terapias celulares, mas as circunstâncias dos casos continuam sob investigação.

Por que os estudos da terapia celular foram suspensos?

A Novartis anunciou no fim de agosto a interrupção de oito estudos clínicos envolvendo rap-cel para doenças autoimunes e neurológicas. A medida ocorreu depois de três participantes desenvolverem casos graves de IEC-HS e morrerem em decorrência das complicações.

A farmacêutica informou que passou a trabalhar com comitês independentes de monitoramento de segurança para revisar os casos. A pausa atingiu recrutamento e tratamento de participantes nos estudos envolvidos enquanto a empresa analisa os dados e tenta determinar quais medidas seriam necessárias antes de uma eventual retomada.

No Brasil, a Anvisa determinou posteriormente a suspensão de três ensaios. A resolução da agência estabeleceu a interrupção por razões de segurança, seguindo as normas aplicáveis aos produtos de terapias avançadas.

A decisão brasileira não significa que todas as terapias CAR-T tenham sido suspensas nem que os tratamentos dessa categoria já autorizados para outras indicações tenham perdido seus registros. A medida é direcionada aos ensaios clínicos específicos com o rapcabtagene autoleucel abrangidos pela resolução.

Um dos estudos interrompidos investigava o tratamento em pessoas com granulomatose com poliangeíte ou poliangeíte microscópica ativa grave. Essas doenças fazem parte de um grupo de vasculites em que o sistema imunológico provoca inflamação dos vasos sanguíneos e pode comprometer diferentes órgãos.

Outro ensaio avaliava pacientes com lúpus eritematoso sistêmico refratário ativo ou nefrite lúpica refratária ativa. O terceiro, de fase 2, estudava a terapia em pessoas com esclerose sistêmica cutânea difusa refratária grave, comparando o tratamento experimental com rituximabe e prevendo acompanhamento prolongado dos participantes.

A gravidade dos eventos explica por que os estudos clínicos possuem mecanismos de interrupção. Durante uma pesquisa, informações de segurança são continuamente coletadas. Quando surge um evento adverso grave ou inesperado, patrocinadores, pesquisadores, comitês independentes e autoridades regulatórias podem determinar pausas para avaliar se a relação entre riscos e possíveis benefícios continua aceitável.

No Brasil, eventos adversos graves ocorridos durante ensaios com produtos de terapias avançadas precisam ser comunicados à Anvisa. Quando um evento leva à morte ou ameaça a vida, a regulamentação estabelece prazo máximo de sete dias para a notificação à agência.

Como funciona o rap-cel e por que a terapia CAR-T está sendo estudada para doenças autoimunes?

As terapias CAR-T ficaram conhecidas principalmente pelo tratamento de determinados cânceres hematológicos. De maneira simplificada, células T do sistema imunológico são coletadas do paciente e modificadas para carregar um receptor capaz de identificar um alvo específico. Depois do processo de preparação, essas células são devolvidas ao organismo.

O rapcabtagene autoleucel é uma terapia direcionada ao CD19, proteína encontrada em células B. Essas células desempenham papel fundamental no funcionamento do sistema imunológico, mas também estão envolvidas no desenvolvimento de diversas doenças autoimunes.

Em condições como o lúpus, o sistema imunológico passa a atacar tecidos do próprio organismo. A hipótese estudada por pesquisadores é que eliminar profundamente determinadas populações de células B possa permitir uma espécie de reorganização do sistema imunológico e reduzir a atividade da doença.

É justamente essa possibilidade que transformou as CAR-T em uma das áreas experimentais mais acompanhadas da imunologia. Pacientes com doenças autoimunes graves e refratárias podem continuar apresentando progressão da doença mesmo depois de receberem tratamentos convencionais, criando demanda por novas estratégias.

Mas existe uma diferença fundamental entre uma hipótese promissora e um tratamento comprovado. Para que uma nova terapia seja incorporada à prática clínica para determinada doença, ensaios precisam estabelecer não apenas se ela produz respostas, mas também quais pacientes podem se beneficiar, quanto tempo o efeito permanece e quais riscos estão associados ao procedimento.

As terapias celulares podem provocar eventos adversos importantes porque alteram de maneira intensa o funcionamento do sistema imunológico. Entre as complicações conhecidas das CAR-T estão respostas inflamatórias excessivas, alterações neurológicas, infecções e problemas hematológicos. O perfil de risco varia conforme a terapia, o paciente e a indicação estudada.

Nos casos que levaram à interrupção do programa do rap-cel, a Novartis informou a ocorrência de IEC-HS, síndrome inflamatória potencialmente fatal associada à ativação imunológica. Os três casos foram suficientemente graves para levar à morte dos participantes.

Isso não permite concluir, isoladamente, qual será o futuro do medicamento. A investigação precisa avaliar fatores como características clínicas dos pacientes, momento em que as reações ocorreram, tratamentos concomitantes, doses utilizadas e possibilidade de modificar protocolos para reduzir riscos.

A suspensão também mostra uma das funções centrais dos ensaios clínicos. Estudos não existem apenas para demonstrar que um medicamento funciona; eles servem igualmente para identificar efeitos adversos e determinar se os benefícios potenciais justificam os riscos.

O que acontece agora com os estudos e com os pacientes?

A prioridade imediata é a análise dos eventos de segurança. A Novartis informou que trabalha com comitês independentes para revisar os óbitos e avaliar o conjunto de dados acumulados nos estudos. Dependendo das conclusões, diferentes caminhos são possíveis.

Uma pesquisa suspensa pode eventualmente ser retomada com mudanças no protocolo, critérios de seleção mais restritos, monitoramento adicional ou novas estratégias para prevenir complicações. Também é possível que determinados estudos permaneçam interrompidos caso os riscos sejam considerados excessivos.

No Brasil, qualquer eventual retomada dos ensaios abrangidos pela suspensão dependerá das exigências regulatórias aplicáveis e da avaliação das informações de segurança. A Anvisa mantém mecanismos específicos de acompanhamento de pesquisas envolvendo produtos de terapias avançadas e disponibiliza informações sobre estudos autorizados, suspensos e cancelados.

Para os participantes de pesquisas clínicas, a interrupção exige acompanhamento das equipes responsáveis pelos estudos. Pacientes não devem modificar tratamentos médicos por conta própria com base na notícia, especialmente porque o rap-cel é um produto experimental e a suspensão não se aplica automaticamente a outras terapias usadas regularmente para doenças autoimunes.

Também é importante separar esse episódio das CAR-T já utilizadas na oncologia. O problema identificado no programa de rap-cel para doenças autoimunes não demonstra que todas as terapias celulares apresentem o mesmo risco. Cada produto possui características próprias e precisa ser avaliado de acordo com os dados obtidos em seus estudos e com a indicação para a qual é utilizado.

O episódio, porém, evidencia o grau de cautela necessário quando tecnologias originalmente desenvolvidas para câncer começam a ser testadas em doenças crônicas. Em oncologia avançada, a relação entre risco e benefício pode ser diferente daquela encontrada em pacientes com doenças autoimunes, inclusive porque existem outras alternativas terapêuticas disponíveis para parte desses pacientes.

Os estudos com CAR-T para autoimunidade continuam sendo uma área relevante da pesquisa médica, mas os acontecimentos envolvendo o rap-cel mostram por que resultados preliminares precisam ser interpretados com cuidado. Respostas clínicas promissoras não eliminam a necessidade de acompanhar eventos adversos raros e potencialmente graves.

A suspensão dos três estudos pela Anvisa funciona justamente como uma medida de segurança enquanto as mortes são investigadas. Até que a análise seja concluída e novos dados estejam disponíveis, não é possível afirmar se os ensaios brasileiros serão retomados nem quais mudanças poderiam ser exigidas.

O caso reforça um princípio básico do desenvolvimento de novos medicamentos: uma terapia experimental precisa demonstrar não apenas potencial de eficácia, mas uma relação entre benefícios e riscos considerada aceitável antes de avançar para utilização mais ampla.

Fontes:

Anvisa — informações oficiais sobre pesquisas clínicas com terapias avançadas

Anvisa — regras para eventos adversos graves em ensaios de terapias avançadas

Reuters — Novartis pausa estudos do rap-cel após três mortes

UOL — Anvisa suspende três ensaios da Novartis no Brasil

CNN Brasil — suspensão dos testes da terapia experimental após mortes

Folha de S.Paulo — Anvisa suspende testes clínicos após três mortes

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