Brasil ultrapassa 600 mil médicos, mas distribuição desigual ainda preocupa gestores de saúde

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Estudo de demografia médica mostra crescimento acelerado da categoria e maior presença feminina, enquanto grande parte dos profissionais segue concentrada nas capitais

O Brasil deve fechar 2025 com 635.706 médicos em atividade, segundo o estudo “Demografia Médica no Brasil 2025”, conduzido pela Faculdade de Medicina da USP em parceria com o Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Medicina (CFM). O número representa um crescimento expressivo em relação ao ano anterior e eleva a média nacional para 2,98 médicos por mil habitantes, patamar mais alto já registrado no país. Apesar do avanço, o levantamento reforça um problema conhecido de gestores de clínicas e hospitais: cerca de 90% dos profissionais médicos ainda estão concentrados nas grandes capitais, deixando regiões do interior com déficit relevante de atendimento especializado. Para quem administra grupos médicos com atuação fora dos grandes centros, entender essa distribuição é essencial para planejar contratações e expansão de unidades nos próximos anos.

O que mudou no perfil da categoria médica

Um dos dados mais relevantes do estudo é a mudança no perfil de gênero da profissão. Pela primeira vez na história, as mulheres representam a maioria dos médicos em atividade no Brasil, somando 50,9% da categoria, com projeção de chegar a 56% até 2035. Esse movimento é puxado principalmente pelo aumento de matrículas femininas nos cursos de medicina, que já correspondem a 61,8% do total de ingressantes, e se reflete de forma ainda mais acentuada em especialidades como dermatologia, pediatria e endocrinologia, nas quais as mulheres já são maioria absoluta.

Outro ponto de destaque é o nível de especialização da categoria. Atualmente, 59,1% dos médicos brasileiros possuem ao menos uma das 55 especialidades reconhecidas no país, mas essa qualificação também segue um padrão concentrado: mais da metade dos especialistas está distribuída em apenas sete áreas da medicina. Esse dado ajuda a explicar por que, em muitas regiões do interior, é comum encontrar médicos generalistas em número razoável, mas escassez de especialistas em áreas como oncologia, cardiologia ou neurologia, obrigando pacientes a se deslocar até centros maiores para consultas específicas.

O crescimento do número de instituições de ensino médico também chama atenção. Comparado a 2018, houve expansão de 20% no número de faculdades de medicina no país, resultado direto da política de interiorização da formação médica adotada nos últimos anos. A expectativa de pesquisadores é que essa expansão ajude a reduzir, ainda que gradualmente, a concentração histórica de profissionais nas capitais, à medida que novos médicos formados no interior tendam a permanecer atuando perto de onde estudaram.

Por que o interior ainda enfrenta escassez de especialistas

Mesmo com o crescimento no número total de médicos, a disparidade regional segue como um dos maiores desafios do setor. Considerando a média nacional de médicos por habitante, 18 dos 27 estados brasileiros apresentam índices abaixo da média do país, um grupo que reúne praticamente todos os estados do Norte, do Centro-Oeste e do Nordeste. Já os estados com índices acima da média se concentram nas regiões Sul e Sudeste, além do Distrito Federal, evidenciando um desequilíbrio que se mantém praticamente inalterado há mais de uma década, apesar do crescimento total da categoria.

A concentração também aparece de forma marcante na formação de novos especialistas. Levantamentos sobre residência médica mostram que São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais reúnem juntos mais de 40% das instituições que oferecem programas de residência no país, além de mais da metade dos médicos residentes em formação atualmente. Em contrapartida, onze estados brasileiros concentram, cada um, menos de 1% do total de residentes do país, o que ajuda a perpetuar a dificuldade de fixação de especialistas fora dos grandes eixos urbanos nos anos seguintes à formatura.

Para tentar reverter esse quadro, o Ministério da Saúde tem ampliado a oferta de bolsas de residência médica voltadas a programas que apresentem propostas de expansão de vagas, com previsão de mais três mil bolsas distribuídas a partir de 2026. O governo também tem investido na contratação direta de profissionais para atuar na atenção primária de municípios desassistidos, por meio de programas federais que buscam suprir, ainda que de forma emergencial, a carência de médicos em regiões mais vulneráveis do país.

O que esse cenário significa para clínicas e grupos médicos

Para gestores de grupos médicos que planejam expansão para o interior, o estudo de demografia médica funciona como uma ferramenta estratégica de planejamento. Estados e regiões com menor densidade médica tendem a representar tanto um desafio de recrutamento quanto uma oportunidade de mercado, já que a demanda por atendimento especializado nessas áreas segue crescendo mais rápido do que a oferta local de profissionais. Grupos que conseguem estruturar modelos de atração e fixação de médicos fora das capitais, com planos de carreira atrativos e infraestrutura adequada, ganham vantagem competitiva em regiões historicamente carentes de atendimento.

O levantamento estadual mais recente, conduzido especificamente sobre São Paulo pela FMUSP em parceria com a Associação Paulista de Medicina, ilustra bem essa dinâmica interna de desigualdade. Enquanto a região de Ribeirão Preto apresenta densidade de mais de cinco médicos por mil habitantes, a região de Registro, no Vale do Ribeira, não chega a dois médicos e meio por mil habitantes, mesmo dentro de um único estado considerado desenvolvido. Esse tipo de disparidade interna reforça que a concentração médica não é apenas um problema entre regiões do país, mas também um desafio dentro de estados que, à primeira vista, aparentam ter oferta suficiente de profissionais.

Diante desse cenário, associações médicas e coordenadores de estudos de demografia reforçam que a expansão apenas no número total de médicos não resolve, por si só, o problema de acesso à saúde no país. A distribuição desses profissionais, aliada a políticas públicas de fixação em regiões carentes e ao planejamento estratégico de grupos médicos privados, será determinante para que o crescimento da categoria se traduza, de fato, em mais acesso a atendimento de qualidade para a população brasileira nos próximos anos.

O avanço no número de médicos formados no Brasil é, sem dúvida, uma boa notícia para o setor de saúde como um todo. Mas os próprios dados do estudo deixam claro que quantidade não resolve, sozinha, o desafio histórico de acesso equilibrado à medicina especializada. Para grupos médicos, hospitais e formuladores de política pública, o próximo passo será transformar esse crescimento em uma distribuição mais justa de profissionais pelo território nacional, algo que ainda depende de decisões coordenadas entre setor público e privado.

Fontes consultadas:
https://sbacvsp.com.br/registro-de-novos-medicos-cresce-58-em-2025/
https://slmandic.edu.br/blog/perspectivas-para-o-futuro-da-medicina-e-da-residencia-medica
https://portugues.medscape.com/verartigo/6513062
https://med.estrategia.com/portal/noticias/demografia-medica-do-estado-de-sao-paulo-2026-veja-os-principais-achados-do-estudo-da-fmusp-e-parceiras/

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