Levantamento da Afya com mais de dois mil profissionais mostra alta de 13% nos casos e maior impacto entre médicas e jovens.
Uma nova pesquisa sobre a qualidade de vida dos médicos brasileiros trouxe um dado que reacende o debate sobre a saúde mental da categoria em todo o país. Segundo o estudo Qualidade de Vida do Médico 2025, realizado pelo Research & Innovation Center da Afya, 45% dos médicos no Brasil apresentam algum quadro de transtorno mental, como ansiedade, depressão e burnout. O levantamento ouviu 2.147 profissionais em todo o país e revela que a situação varia bastante conforme a região, o gênero e a faixa etária dos entrevistados. Para quem administra clínicas e equipes médicas, o resultado levanta uma dúvida direta: por que esse número voltou a subir depois de alguns anos de queda, e o que isso significa na prática para a rotina dos consultórios brasileiros? APMEstado de Minas
Os números por trás do aumento nos casos
De acordo com o levantamento, o percentual de 45% é o mesmo registrado no período pós-pandemia, em 2022, e representa um aumento de 13% em relação ao levantamento anterior, feito entre julho e agosto de 2024. Os pesquisadores da Afya apontam uma hipótese para esse crescimento recente. Segundo eles, a maior conscientização sobre saúde mental estaria levando mais profissionais a reconhecer sintomas, buscar ajuda especializada e obter diagnósticos adequados, o que significaria que o problema não cresceu de forma repentina, mas passou a ser mais identificado. APMAPM
O recorte por gênero chama atenção especial no estudo. Entre as médicas, a prevalência de transtornos mentais atingiu 51,8% em 2025, contra 46,8% no ano anterior, um salto expressivo em apenas doze meses. A faixa etária também influencia bastante o resultado, já que na faixa de até 35 anos, aproximadamente metade dos profissionais apresenta diagnóstico, enquanto entre os médicos com 56 anos ou mais esse índice cai para apenas 18%, mostrando que os profissionais mais jovens enfrentam uma pressão bem maior no início da carreira. EspacodemocraticoContexto
Regionalmente, o cenário também não é uniforme. Enquanto a média nacional gira em torno de 45%, no Sudeste esse percentual sobe para 55%, um dos índices mais altos entre as regiões do país. Já no Nordeste, o levantamento aponta um cenário distinto, com 39% dos médicos relatando algum quadro de doença mental, número inferior à média nacional, mas ainda assim relevante. Estado de MinasBlog do Eliomar
O impacto na rotina e na qualidade de vida dos médicos
Além do diagnóstico em si, a pesquisa da Afya também investigou como os médicos avaliam a própria qualidade de vida no dia a dia. Os dados mostram que seis em cada dez médicos não se declaram satisfeitos com a própria saúde, e cerca de 25% classificam sua qualidade de vida como ruim ou muito ruim. Esse resultado indica que o desgaste vai além dos diagnósticos formais e atinge a percepção cotidiana de bem-estar da categoria. Contexto
O estudo também detalhou a prevalência de sintomas específicos entre os participantes. Segundo o levantamento, 58,2% dos médicos já vivenciaram algum grau de esgotamento relacionado ao trabalho, e cerca de quatro em cada dez convivem com diagnóstico de ansiedade. O próprio dado sobre ansiedade reforça a extensão do problema, já que apenas 24,7% dos respondentes afirmaram nunca ter apresentado sintomas ansiosos ao longo da vida. Medicina S/AMedicina S/A
Para especialistas ouvidos sobre o tema, a saúde mental dos médicos deixou de ser um assunto apenas individual e passou a ser tratada como elemento de segurança assistencial. Como resumiu o líder do Research & Innovation Center da Afya, cuidar da saúde mental do médico é também uma forma de cuidar da saúde de toda a população, já que um profissional sobrecarregado tem mais dificuldade de oferecer um atendimento de qualidade ao paciente. Folha PE
O que os dados sugerem para o futuro da categoria
Diante desse cenário, a Afya lançou uma campanha voltada ao acolhimento e ao autocuidado de médicos e estudantes de medicina, buscando ampliar o debate sobre o tema dentro das instituições de ensino e das próprias clínicas. A iniciativa reforça que o cuidado com a saúde mental precisa começar ainda durante a graduação e se estender por toda a trajetória profissional, e não apenas quando os sintomas já estão consolidados.
Os números da pesquisa mostram que o desgaste emocional da categoria médica segue sendo um desafio estrutural do sistema de saúde brasileiro, com reflexos diretos na qualidade do atendimento e na permanência dos profissionais na carreira. Para gestores de clínicas e grupos médicos, entender esses dados pode ajudar a pensar em políticas internas de bem-estar mais consistentes, capazes de reduzir o desgaste da equipe antes que ele se transforme em afastamento ou desistência da profissão.
Fontes:
APM, pesquisa Afya sobre transtorno mental: https://www.apm.org.br/45-dos-medicos-no-brasil-sofrem-com-ao-menos-um-tipo-de-transtorno-mental-taxa-atinge-mesmo-patamar-do-pos-pandemia-revela-novo-estudo/
Portal Contexto, saúde mental dos médicos: https://portalcontexto.com/quase-metade-dos-medicos-brasileiros-relatam-algum-tipo-de-transtorno-mental/
Medicina S/A: https://medicinasa.com.br/medicina-doenca-mental/
Folha PE: https://www.folhape.com.br/radio-folha/pesquisa-aponta-que-45-dos-medicos-brasileiros-sofrem-com-transtornos/441921/
