Dronabinol mostra potencial contra pesadelos associados ao transtorno de estresse pós-traumático

Sarah Hartmere
9 Min de leitura

Estudo clínico randomizado publicado na Nature Medicine aponta redução significativa da frequência e da intensidade dos pesadelos em pessoas com TEPT tratadas com dronabinol, forma farmacêutica do THC. Especialistas, porém, destacam que novas pesquisas são necessárias antes de ampliar seu uso para essa finalidade. (Nature)

Uma nova pesquisa clínica está ampliando as discussões sobre alternativas para um dos sintomas mais persistentes do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): os pesadelos recorrentes. Um ensaio multicêntrico, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo avaliou o dronabinol, uma forma farmacêutica do delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), em adultos diagnosticados com TEPT que apresentavam pesadelos frequentes. Os resultados mostraram que, durante dez semanas de tratamento, os participantes que receberam o medicamento tiveram uma redução significativamente maior da frequência e da intensidade dos pesadelos em comparação com aqueles que receberam placebo. O trabalho foi publicado na Nature Medicine em agosto de 2026 e recebeu uma análise específica da revista nesta quarta-feira, 19 de agosto. (Nature)

O resultado desperta interesse porque alterações do sono são uma característica importante do TEPT e podem persistir mesmo quando outros sintomas são tratados. Pesadelos ligados ao trauma podem provocar despertares frequentes, ansiedade antes de dormir e deterioração da qualidade do sono, com consequências que se estendem para o funcionamento durante o dia. Ao mesmo tempo, as opções farmacológicas especificamente direcionadas a esse problema são limitadas. É nesse contexto que pesquisadores vêm investigando a atuação do sistema endocanabinoide e de medicamentos derivados de canabinoides sobre sono, medo e respostas relacionadas ao trauma. (Nature)

Como foi realizado o estudo

O ensaio clínico avaliou adultos com TEPT e pesadelos recorrentes, divididos aleatoriamente entre dois grupos. Um deles recebeu dronabinol e o outro recebeu placebo. O tratamento foi administrado uma vez ao dia antes de dormir durante dez semanas, com doses de dronabinol entre 2,5 mg e 15 mg. Por se tratar de um estudo duplo-cego e controlado por placebo, nem os participantes nem os profissionais envolvidos na avaliação sabiam previamente quem estava recebendo o medicamento ativo, estratégia utilizada para reduzir vieses na interpretação dos resultados. (Nature)

Ao final do período, a carga associada aos pesadelos caiu mais entre os pacientes que utilizaram dronabinol. Em uma escala de zero a oito pontos empregada para avaliar esse problema, a redução média foi de aproximadamente 3,7 pontos no grupo tratado, enquanto o grupo placebo apresentou diminuição de cerca de 2,2 pontos. Mais de um terço dos pacientes tratados com dronabinol relatou não apresentar mais pesadelos depois das dez semanas. Esses números tornam o estudo particularmente relevante, embora não signifiquem que o medicamento funcione para todas as pessoas com TEPT. (Charité – Universitätsmedizin Berlin)

O que é o dronabinol

O dronabinol é uma forma farmacêutica do delta-9-THC, uma das principais substâncias ativas encontradas na cannabis. Isso não significa, entretanto, que o tratamento estudado seja equivalente ao consumo recreativo de cannabis. Em pesquisas clínicas, o medicamento possui dose definida, formulação padronizada e administração controlada, permitindo que pesquisadores acompanhem de maneira mais precisa os efeitos terapêuticos e possíveis eventos adversos.

O medicamento também não surgiu originalmente como tratamento para TEPT. O dronabinol já possui aplicações médicas em outros contextos, incluindo determinados casos de náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia e perda de apetite associada à AIDS. A utilização contra pesadelos relacionados ao TEPT representa uma linha diferente de investigação e, portanto, não deve ser interpretada como uma indicação para automedicação ou como evidência de que qualquer produto contendo THC produzirá o mesmo efeito. (MedlinePlus)

Por que o THC pode interferir nos pesadelos?

Uma das hipóteses estudadas envolve o sistema endocanabinoide, conjunto de receptores e moléculas envolvido em diferentes processos do organismo, incluindo regulação do estresse, memória, emoções e sono. Pesquisadores vêm tentando compreender há anos como essa rede participa das respostas ao trauma e se determinados canabinoides poderiam modular alguns dos mecanismos relacionados ao TEPT.

Estudos anteriores e observações clínicas já haviam criado interesse nessa possibilidade, mas as evidências disponíveis eram limitadas. O novo ensaio é relevante justamente porque utiliza um desenho randomizado e controlado por placebo, oferecendo evidências mais robustas do que relatos individuais ou estudos observacionais. Ainda assim, uma resposta positiva em um ensaio não encerra a questão científica: os resultados precisam ser reproduzidos e avaliados em populações maiores e diferentes. (Nature)

Pesadelos podem ser um problema central no TEPT

Embora frequentemente tratados como apenas uma consequência secundária do transtorno, os problemas de sono podem ter grande impacto na vida de pessoas com TEPT. Pesadelos recorrentes relacionados a experiências traumáticas podem fazer com que o paciente passe a temer o momento de dormir, apresente despertares frequentes ou tenha dificuldade para retornar ao sono. A privação e a fragmentação do descanso também podem contribuir para dificuldades de concentração, alterações de humor e pior funcionamento cotidiano.

O tratamento desses sintomas representa, portanto, uma área importante da pesquisa. Diferentes abordagens psicológicas e farmacológicas são utilizadas de acordo com cada paciente, mas ainda existe interesse por intervenções especificamente direcionadas aos pesadelos. O próprio protocolo que deu origem ao estudo destacava que não havia um tratamento farmacológico especificamente aprovado para pesadelos relacionados ao TEPT, uma das razões para investigar o dronabinol. (Springer)

Resultado promissor ainda exige cautela

Apesar dos resultados positivos, o dronabinol não deve ser entendido como uma solução definitiva para o TEPT. Uma análise publicada pela Nature Medicine em 19 de agosto classificou os resultados como promissores, mas destacou que estudos adicionais são necessários para confirmar tanto a eficácia quanto a segurança. Questões como seleção adequada dos pacientes, duração ideal do tratamento, possíveis efeitos adversos e manutenção dos benefícios após a interrupção do medicamento precisam continuar sendo investigadas. (Nature)

Também é importante separar a pesquisa sobre uma formulação farmacêutica padronizada de THC do debate mais amplo sobre cannabis. Os resultados do ensaio dizem respeito especificamente ao dronabinol administrado dentro de um protocolo clínico, com doses controladas e acompanhamento profissional. Eles não demonstram que o uso independente de cannabis seja eficaz ou seguro para pessoas com TEPT e não devem ser utilizados como orientação para iniciar ou modificar tratamentos sem avaliação médica.

Pesquisa abre uma nova frente de investigação

A principal contribuição do estudo está em fornecer evidência clínica controlada de que a modulação do sistema canabinoide pode representar uma estratégia relevante para determinados sintomas do transtorno de estresse pós-traumático. A redução observada nos pesadelos e o número de participantes que deixaram de apresentá-los ao final das dez semanas justificam novas pesquisas, especialmente porque distúrbios do sono podem permanecer durante longos períodos e comprometer significativamente a qualidade de vida.

Os próximos passos deverão esclarecer se os resultados podem ser reproduzidos em grupos maiores, quais pacientes apresentam maior probabilidade de responder ao tratamento e como os benefícios se comparam a outras estratégias disponíveis. Até que essas questões sejam respondidas, o dronabinol permanece como uma alternativa experimental promissora para pesadelos associados ao TEPT, e não como uma solução universal ou tratamento que deva ser utilizado sem acompanhamento especializado. (Nature)

Fontes

Nature Medicine — estudo clínico sobre dronabinol e pesadelos no TEPT

Nature Medicine — análise “Waking from the nightmare of PTSD”, publicada em 19 de agosto de 2026

Charité – Universitätsmedizin Berlin — divulgação dos resultados do estudo

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