Levantamento do setor mostra que tecnologia avança na gestão médica, mas maioria dos consultórios ainda não mapeou a jornada do paciente.
Um novo estudo sobre o mercado de clínicas e hospitais no Brasil trouxe um retrato pouco animador da maturidade tecnológica do setor. Segundo a pesquisa, apenas 33% das instituições de saúde já adotam algum tipo de solução baseada em inteligência artificial, embora 40% delas demonstrem interesse em incorporar a ferramenta nos próximos meses. O dado chama atenção porque a IA deixou de ser promessa distante e já está presente em rotinas de grandes hospitais, mas ainda engatinha entre clínicas de pequeno e médio porte. Para gestores médicos, a pergunta natural que surge é: onde realmente vale a pena investir primeiro? O levantamento, batizado de Panorama de Clínicas e Hospitais 2026, foi conduzido pelas plataformas Doctoralia e Feegow e ouviu lideranças de saúde sobre tecnologia, atendimento ao paciente e estratégias de marketing digital. Os resultados indicam um setor em transição, equilibrando eficiência operacional com a necessidade de manter o cuidado humanizado.
O que os dados mostram sobre o uso de tecnologia nas clínicas
A pesquisa identificou uma espécie de curva de maturidade na adoção da inteligência artificial dentro das clínicas brasileiras. Em geral, o processo começa de forma individual, quando o próprio médico passa a usar ferramentas de IA por conta própria, sem integração institucional. Em uma etapa seguinte, essas soluções passam a ser incorporadas a sistemas de prontuário eletrônico e, em especialidades como radiologia, a plataformas de imagem como RIS e PACS. O estágio mais avançado, ainda restrito a poucas instituições, envolve sistemas nativos de IA voltados ao suporte da decisão clínica, capazes de cruzar dados de exames, histórico do paciente e indicadores financeiros em tempo real.
Outro ponto destacado pelo estudo é que a tecnologia não deveria se limitar ao auxílio diagnóstico. Especialistas ouvidos na pesquisa defendem que a automação de tarefas administrativas, como elaboração de laudos, transcrição de consultas e conferência de faturamento, tem potencial de reduzir significativamente o tempo que médicos dedicam a burocracias fora do horário de atendimento. Esse tempo extra, chamado no setor de “pijama time”, afeta diretamente a qualidade de vida do profissional e pode contribuir para o esgotamento. Reduzir falhas de faturamento e glosas também aparece como prioridade, já que esses erros impactam diretamente a sustentabilidade financeira das clínicas.
Comunicação com o paciente ainda é um ponto cego para muitas clínicas
Além da tecnologia voltada à parte clínica, o estudo trouxe números relevantes sobre como as instituições se comunicam com seus pacientes. De acordo com o levantamento, 87% das clínicas já utilizam o WhatsApp como principal canal de agendamento, o que reforça a centralidade do aplicativo de mensagens na rotina de atendimento no Brasil. Já em relação a investimentos em marketing digital, 79% das instituições afirmam considerar essa estratégia importante, mas a maioria reconhece fazer apenas o básico, sem uma estratégia estruturada de relacionamento de longo prazo com o paciente.
Um dos achados mais relevantes da pesquisa é que cerca de 70% das clínicas não possuem a jornada do paciente mapeada, ou seja, não acompanham de forma sistemática o que acontece entre uma consulta e outra. Esse intervalo é descrito pelos especialistas como um vácuo assistencial, período em que o paciente pode se afastar do acompanhamento e a clínica perde oportunidades de fidelização. O estudo também alerta para o desafio da inclusão digital, já que uma parcela expressiva da população acima de 60 anos ainda tem baixo letramento digital, o que exige que clínicas pensem em jornadas híbridas, combinando tecnologia com atendimento humano, para não excluir esse público.
O que esperar da gestão de clínicas nos próximos meses
Diante desse cenário, a tendência apontada por especialistas é que a competição entre clínicas deixe de girar apenas em torno da captação de novos pacientes, considerada um mercado já bastante disputado, e passe a focar na retenção e na fidelização de quem já é atendido pela instituição. Isso envolve desde lembretes automatizados de retorno até estratégias de medicina preventiva que mantenham o vínculo entre médico e paciente ativo mesmo fora das consultas presenciais.
Para quem administra uma clínica ou consultório, o levantamento reforça que a adoção de tecnologia não deve ser feita apenas por modismo, mas a partir de um diagnóstico real de onde a ferramenta pode resolver gargalos específicos do processo. Investir em automação de backoffice, mapear a jornada do paciente e equilibrar canais digitais com atendimento humanizado aparecem como os caminhos mais indicados para os próximos passos da gestão em saúde no Brasil. Pacientes e familiares que buscam orientações sobre tratamentos ou diagnósticos específicos devem sempre consultar um médico de confiança, já que dados de mercado não substituem a avaliação clínica individual.
A transformação digital da saúde brasileira segue um ritmo desigual, com grandes redes hospitalares avançando mais rápido do que clínicas de menor porte. Ainda assim, os dados do Panorama de Clínicas e Hospitais 2026 mostram que o caminho está traçado: tecnologia aplicada à gestão, comunicação mais próxima com o paciente e atenção redobrada à inclusão digital tendem a definir quais instituições vão se destacar nos próximos anos. Para gestores e médicos, acompanhar esses indicadores deixou de ser opcional e passou a ser parte da estratégia de sobrevivência no mercado de saúde.
Fontes consultadas:
- https://telepacs.com.br/panorama-das-clinicas-e-hospitais-2026/
- https://www.faculdadeunimed.edu.br/blog/tendencias-tecnologia-saude-2026/
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
